F
Entre nós · European Portuguese B1
Cover
Illustration
A nossa escola ocupa um castelo acima dos campos e da floresta. Dizem que é a escola mais prestigiada da . Estamos em 1985 e devemos acreditar que somos todos iguais.
Alguns rapazes estão aqui porque as suas famílias têm dinheiro. Outros têm pais . O meu trabalha numa fábrica. Eu entrei porque sou excecionalmente bom a matemática.
Neste só há rapazes, todos no último ano de estudos. Apesar de termos todos dezoito anos ou mais, sinto-me pequeno ao atravessar o portão. Abrando, embora saiba que não posso ficar lá fora. Odeio este lugar.
1/22
Illustration
Aqui, ser inteligente pode ser perigoso.
O professor trouxe um problema da universidade. Já o resolvi quando ele pede a minha resposta.
«Matthias?»
Da última vez que acertei, Felix chamou-me «». Rolf bateu-me depois da aula.
Olho para a solução. Acertar é fácil. O difícil é continuar a viver com eles depois.
«Hum... zero?» digo, apesar de saber que não é.
2/22
Illustration
«Errado», diz o professor. «Talvez devesses estudar mais.»
Rolf dá um na minha cadeira. Felix destapa a . Recuo e levanto o para travar a mão dele.
«Para!»
Ele sacode a caneta antes de eu conseguir afastá-la. Uma linha irregular de preta atravessa a minha camisa branca.
«Cuidado. É a única que ele tem», diz Rolf.
«Compra outra», diz Felix. «Ah, os teus pais não podem.»
Fecho o velho para esconder a . A minha mãe arranjou-o na semana passada; agora tenho vergonha de o usar.
3/22
Illustration
Passo o polegar pela parte do casaco que a minha mãe arranjou. Os pontos são pequenos e cuidadosos. Seguro as duas partes do casaco sobre a da camisa.
Odeio estar aqui. Se dou a resposta certa, magoam-me. Se dou a errada, magoam-me na mesma.
Pensei que passar talvez ajudasse. Agora fico muito quieto, à espera de que a aula acabe.
Nunca muda nada.
4/22
Illustration
Uma pancada na porta interrompe o riso. Quando o professor abre, encontra um rapaz com o casaco sobre o braço. O cabelo louro ainda está molhado da chuva.
«Adrian. O nosso novo aluno.»
«O casaco dele é ainda pior do que o teu», murmura Rolf.
Levanto os olhos sem querer. Não sei porque escolheram Adrian como alvo, mas sinto alívio por terem deixado de olhar para mim.
5/22
Illustration
«Senta-te ao lado de Matthias», diz o professor.
Adrian repara na da minha camisa e oferece-me um . Por um momento, estou quase a aceitá-lo. Depois vejo Felix a observar-nos.
«Não preciso.»
Adrian baixa a mão.
«E vão partilhar o quarto catorze», acrescenta o professor.
O meu quarto. Felix imita um beijo. Alguns rapazes riem-se.
Merda. Até agora, podia fechar a porta do quarto e escapar-lhes. Amanhã terão uma razão nova para gozar comigo.
6/22
Illustration
Na quinta-feira, todos têm uma história sobre Adrian, embora ninguém pareça saber de onde vieram essas histórias.
«O pai dele era soldado», diz Rolf no corredor. «Numa daquelas unidades especiais.»
«Morreu», acrescenta outro aluno.
«Quem vos disse isso?»
Ninguém responde. Mais à frente, Adrian caminha sozinho, com o caderno preto debaixo do braço. Nunca o vi sem ele.
Tem dezanove anos, apenas mais um do que eu. Apesar de partilharmos um quarto, sei quase tão pouco sobre ele como os outros.
7/22
Illustration
Ao almoço, Felix retira a mala da cadeira ao lado.
«Senta-te aqui, Matthias.»
O pai dele é um alto funcionário do . Talvez isso explique a roupa nova e a falta de preocupação com as regras.
Aos sábados, vou a casa dele ajudá-lo com a matemática. Na escola, porém, costuma agir como se eu não existisse.
Procuro na cara dele algum sinal de outra piada. Parte de mim quer acreditar, mas sento-me com a mala no colo. Estou pronto para sair.
8/22
Illustration
«Nunca larga aquele caderno», diz Felix. «O que escreve? As saudades da ?»
Vira-se para mim. «Rouba-o, Matthias. Faz alguma coisa interessante, para variar.»
Adrian nunca me deu razões para lhe fazer mal. Estou quase a dizê-lo quando Felix me pousa a mão no ombro.
É um gesto pequeno, mas já nem me lembro da última vez que alguém me tocou sem me querer magoar. Deixo passar a oportunidade de responder.
9/22
Illustration
Depois das aulas, Adrian deixa o caderno na mesa junto à cama do quarto catorze.
«Vou lavar as mãos.»
Assim que a porta fecha, a minha mão fica suspensa sobre a capa.
Ainda posso deixá-lo onde está. Se Felix tem tanta curiosidade, que venha buscá-lo. Mas lembro-me da mão no meu ombro e do lugar que me ofereceu ao almoço.
Pego no caderno e saio sem o abrir.
10/22
Illustration
Felix espera perto das escadas. Caminho na direção dele, com o caderno fechado apertado contra o corpo.
Adrian não fez nada para merecer isto. Ainda posso voltar, pôr o caderno na mesa e fingir que nunca lhe toquei.
Mas talvez, depois disto, Felix e Rolf deixem de me tratar como alguém em quem podem bater quando lhes apetece.
Continuo a andar. Quero acreditar que uma coisa má pode comprar-me um pouco de paz.
11/22
Illustration
Paro sozinho junto a uma janela do corredor. É melhor ver o que está dentro do caderno antes de o entregar a Felix.
Uma chávena, uma janela, o professor mais cansado do que zangado. Coisas normais, mas os desenhos fazem-me querer olhar outra vez.
«São lindos», , surpreendido comigo mesmo.
Viro a página e encontro a minha cara. Na camisa está a de segunda-feira. Reconheço cada pormenor, mas não pareço parvo nem fraco.
Pareço alguém que ser desenhado.
Há quanto tempo me observa assim?
12/22
Illustration
Fecho o caderno e afasto-me da janela. Felix bloqueia o caminho, de mão estendida.
«Ah, conseguiste.»
Hesito, depois aperto o caderno contra o peito. Há minutos queria entregar-lho. Agora não consigo.
Adrian aparece atrás dele. O olhar vai direito ao caderno nos meus braços. Antes de eu conseguir explicar, passa por Felix e arranca-mo das mãos. Não esperava tanta rapidez.
«Vai-te lixar, novo aluno! !» grita Felix.
Adrian olha para trás, uma vez. Quem me dera que gritasse comigo.
13/22
Illustration
Nessa noite, estamos deitados nas nossas camas, no quarto catorze. Adrian estende a mão para o .
«Não lhes mostrei os desenhos», digo.
A mão dele para. Por um segundo, penso que vai virar-se para mim. Quero que saiba que escondi os desenhos de Felix, embora tenha sido eu a roubá-los.
«Boa noite, Matthias.»
A luz apaga-se. Fico acordado, atento ao silêncio entre as nossas camas.
14/22
Illustration
Na sexta-feira, transportamos os pelo ginásio. O professor de educação física espera que os coloquemos no sítio.
«Escolham um colega.»
Felix levanta a mão antes de alguém falar.
«Professor, eu vou com o novo aluno.»
Olha para Rolf e os dois trocam um sorriso de satisfação. Já vi aquele sorriso vezes suficientes para saber o que significa.
Adrian limita-se a avançar. Pergunto-me se também reparou.
15/22
Illustration
Adrian tira a camisola de desporto. Felix faz o mesmo, ainda a sorrir enquanto se aproxima do .
Já tinha reparado nas mãos de Adrian quando desenhava. Agora reparo nos ombros, no peito, na confiança com que se move.
Desvio o olhar antes de alguém me apanhar a observá-lo. Depois volto a olhar.
O sorriso de Felix mudou. Por um momento, parece menos seguro do que vai acontecer. Depois levanta o queixo e enfrenta Adrian.
16/22
Illustration
O professor dá o sinal. Felix avança contra Adrian, que acompanha o movimento em vez de tentar travá-lo.
Um instante depois, Felix está de costas. Adrian mantém-no preso ao , sem dar sinais de esforço nem perder o .
O professor levanta a mão. O combate acabou.
Quase sorrio. Felix tinha tanta certeza de que todos iam rir de Adrian.
Agora procura os outros rapazes com o olhar antes de encarar quem o venceu.
17/22
Illustration
«Outra vez», diz Felix. «Não estava preparado.»
Rolf troca um olhar com ele e corre para a porta.
«Professor! Há alguém a vomitar na casa de banho!»
O professor manda-nos esperar e segue-o até ao corredor. Rolf indica o caminho, mas não o acompanha.
Espera que o professor desapareça ao virar da esquina. Só então regressa ao .
A expressão preocupada desapareceu. Devia ter percebido mais cedo.
18/22
Illustration
Felix ataca antes de alguém dar o sinal. Quando Adrian se vira para o enfrentar, Rolf agarra-lhe o de lado. Juntos, deitam-no abaixo.
Felix torce-lhe o braço direito atrás das costas, enquanto Rolf lhe prende o . Adrian bate no com a mão livre: é o sinal para parar.
Felix olha diretamente para aquela mão. Viu o sinal, não há dúvida.
E puxa com mais força.
19/22
Illustration
«Larga-o», digo.
Adrian bate de novo no , com a cara tensa de dor. Sei o que acontece se me meter. Basta sentar-me e fingir que não vi nada.
Então ele olha para mim. Já o uma vez.
Entro no e puxo Felix para longe dele. Rolf larga-lhe o .
«Filho do .» Felix vira-se para mim.
Três rapazes levantam-se e juntam-se a ele e a Rolf. São cinco à minha volta. Adrian continua no , atrás de mim.
20/22
Illustration
Felix dá-me um na boca. Sinto sangue antes da dor no lábio inferior. Alguém agarra a minha camisola cinzenta, esticando a , e Rolf derruba-me. A face esquerda bate no chão.
Cinco rapazes cercam-me. Protejo a cabeça com os braços enquanto me dão pontapés no lado do corpo. Sempre que tento mexer-me, outras pernas fecham o caminho.
Adrian abre caminho para me proteger. Felix acerta-lhe com o na direita.
«Parem!»
O professor voltou. Afastam-se imediatamente.
«Eles começaram, professor», diz Felix, como se tivesse visto tudo de longe.
21/22
Illustration
Adrian e eu estamos sentados no chão quando o professor chega. O meu lábio inferior sangra. A face esquerda está a inchar e Adrian segura a testa acima do olho direito.
O professor fica de pé diante de nós.
«Vejam o estado em que se puseram.»
«Não começámos.»
«Chega, filho do . Isto é uma escola, não é a do teu pai.»
«Ele estava a ajudar-me», diz Adrian, mas o professor já decidiu.
«. Os dois. Todas as tardes da próxima semana.»
Nenhum de nós se levanta. Ele espera uma resposta que não consigo dar.
«Vocês vão passar muito tempo juntos.»
22/22
Cover